Sobre provas
Assinale a alternativa correta e justifique sua resposta.
Eu não tenho tido tempo para muita coisa além de trabalho, faculdade e trabalho da faculdade. Isso não é exatamente ruim (ainda que certamente não seja bom) na atual conjuntura das coisas, mas acaba gerando algumas dessas coisinhas do dia a dia que a gente tende a varrer para debaixo do tapete na hora de lembrar o que aconteceu ao longo do ano. Esses padrõezinhos traiçoeiros que, de tempos em tempos, começam a brilhar no canto da tela da percepção por só alguns frames em meio a centenas de cada vez, e que a gente até pensa em prestar atenção de vez em quando, mas acaba deixando se afogar no esquecimento do espaço entre Grandes Coisas. A última veio em uma forma de texto que já há alguns anos não participava da minha vida desperta, mas que nunca abandonou o espaço dos meus sonhos: a prova.
Você já sonhou com isso também, eu tenho certeza: É hora de fazer uma prova para a qual está terrivelmente despreparado, talvez por ter faltado o ano letivo inteiro até esse momento, talvez por alguma outra coisa. Gostaria de saber se esse tipo de sonho também se propaga entre pessoas que não terminaram os estudos.
Prova é o tipo de coisa que a gente passa 12, 16, 20 anos da vida tendo como parte da rotina, semanal, mensal, semestral, anualmente e aí para. É o tipo de coisa que jamais vamos esquecer, caso sejamos reprovados, mas à qual nunca mais dedicaremos pensamento algum, caso obtenhamos algum sucesso. É o tipo de coisa que, se bem escolhida e bem realizada, pode ser a última. É uma sequência de fatores tão enlouquecedora que seria estranho se não acabássemos condenados a perder nosso sono em nome das ansiedades que ela provoca, ou pelo menos simboliza.
Eu fiz uma prova essa semana, e eu acho que fui bem. Eu gosto do meu curso de graduação. Eu tenho dado mais atenção a ele do que eu costumava dar, e isso tem sido bom, dentro da atual conjuntura das coisas.
É a primeira prova que eu faço no curso, e eu já estou aqui há um tempinho. Tem sido mais comum, me contam colegas em etapas diferentes da graduação. Percebo que talvez seja uma reação ao uso de IA pelos alunos em trabalhos feitos em casa. Ninguém me disse isso diretamente, mas nos últimos tempos essa questão tem povoado o entrelinhas de muitas interações entre docentes e discentes. Tem pelo menos um ou dois trabalhos em cada rodada de apresentação que acabam se revelando obra de IA. Sempre dá pra reconhecer, nunca ninguém fala nada. Eu não acho que seja papel de nenhum colega da cadeira ou mesmo do professor expor publicamente o uso de IA. Mas tem sido bem comum.
Sexta à noite eu tenho feito uma cadeira, uma daquelas assassinas do fim de semana. Comentando e expondo o tema da disciplina, meu professor não consegue fugir de um tema, que dá o ar da graça rotineiramente nas aulas: a morte. Sempre que cita um nome de autor, deixa claro se já morreu, se está vivo, ou se, infelizmente, não tem a informação (mas que retornará com ela após o intervalo, ou “alguém aí dá um google rapidinho?”). Eu consigo entender alguma forma de justificativa racional, conteudista, desse comportamento. Até aí, tudo bem, disse o frango na porta do forno. Meu professor gosta mesmo é das mortes trágicas, especialmente os suicídios.
“Esse se matou depois de descobrir que era corno.”
“Esse aí morreu num acidente de carro, mas acho que não foi acidente coisa nenhuma. Foi é de propósito.”
“Esse tentou se matar, mas não conseguiu. Acabou só paralisado. Lutou por anos pra recobrar os movimentos e, quando conseguiu, foi lá e se matou.”
Eu e meu pequeno grupo de amigos herdados de semestres anteriores permanecemos pasmos, todas as sextas-feiras. A aula já não era boa; o tempero de mortalidade adiciona um peso que vai além de uma aula burocrática, monótona, mas inofensiva. Em algum sentido, foi por isso que a turma passou a tentar encontrar formas de defesa psíquica contra esse ataque depressivo com hora marcada. Muita gente lê, eu inclusive. O professor claramente não se importa. Tem quem jogue no celular, tem quem responda e-mails. Esses dias uma amiga minha terminou um livro durante essa aula e veio comentar quando saímos da sala.
Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra, é muito divertido. Eu não quero entregar completamente a lógica por trás do livro aqui; este texto não é sobre isso. Basta dizer que o livro é uma prova: 90 questões divididas em cinco diferentes tipos de exercício. As oitenta e poucas páginas da obra permitem que seja realizado/lido em algumas horas. Os textos, que carregam uma atmosfera muito nostálgica de crônica-que-se-lê-fazendo-prova-de-português, trazem também um certo amargor revelado pela rigidez conceitual do processo mecânico de lê-los e relê-los, avaliando as diferentes alternativas. Cada um é um experimento a partir da alteração de significados implícita na ideia de uma questão de múltipla escolha. Por exemplo:
26) Assinale a alternativa que corresponda à ordem que mais adequadamente constitui um bom roteiro de redação.
1. Você tenta se lembrar da sua primeira comunhão.
2. Tenta se lembrar de sua primeira masturbação.
3. Tenta se lembrar de sua primeira relação sexual.
4. Tenta se lembrar da primeira morte em sua vida.
5. E da segunda.
a) 1 - 5 - 2 - 3 - 4
b) 1 - 2 - 5 - 3 - 4
c) 1 - 2 - 3 - 5 - 4
d) 4 - 5 - 1 - 2 - 3
e) 4 - 3 - 2 - 1 - 5
Antes de seguir lendo, responda, por favor. Obrigada.
O livro não termina com um gabarito. Nada além da interação do leitor com o texto pode apontar uma resposta certa. Mesmo assim, para além de explorar formalmente o processo de releitura analítica que embasa a escolha, Zambra investiga seus limites: as alternativas “a”, “b”, “c”, “d” e “e” são mesmo as únicas possibilidades de ordenamento do texto?
Falando em forma, esse mesmo professor dessa cadeira disse, ainda numa das primeiras aulas, em um momento de inspiração máxima vinda de uma fonte que até e desde então se mostrou seca, uma frase tão simples quanto genial, enquanto comentava a tragédia da vida de um artista (suicida) conhecido por sua exploração da forma pela forma em seu trabalho:
“Quem dera os problemas da vida real fossem problemas formalistas.”
O estranhamento desse provérbio começa na escolha de palavras. Por que formalistas e não formais? O segundo faria sentido, se considerássemos que o sentido da frase é que os problemas da vida real são piores (ou pelo menos diferentes) do que os problemas da forma, cuja solução é buscada por investigadores tidos como formalistas. Mas a escolha por formalista sugere outra coisa, inteiramente. Se um problema formal é aquilo que um formalista busca solucionar, um problema formalista é uma proposta de solução por parte desse investigador, em busca da resposta do problema formal.
Em outras palavras, os problemas da vida real são problemas formais. À forma é concedida uma passividade de objeto que se confunde com o real. Um formalista talvez tenha como função justamente jogar contra os problemas da vida problemas artificiais, talvez na esperança de substituí-los, talvez na esperança de, por comparação, expor a gravidade do real perante a futilidade da criação humana. De qualquer modo, não parece uma visão filosófica muito otimista. Nem a dos formalistas, nem a do meu professor.
Zambra não é um formalista. Suspeito que ninguém seja, desde que a CIA parou de molhar a mão do pessoal. Múltipla Escolha é um livro muito político, e a forma é dobrada e costurada a um agudo, sarcástico e, no fim das contas, dolorido desabafo sobre o Chile do século XX e seus ecos. O livro é baseado, somos informados ainda na primeira página, na Prova de Aptidão Acadêmica chilena, aplicada entre 1966 e 2002, algo análogo ao nosso ENEM.
Eu fiz o ENEM no ano passado, cinco anos depois da última vez, que me trouxe até onde eu estou. Passei boa parte do ano fantasiando com a possibilidade de passar em um outro curso, em uma outra cidade, e começar alguma outra coisa. No dia da prova, eu tinha dormido umas três horas e não estudei absolutamente nada ao longo do ano, mas até ali as coisas pareciam fazer sentido para que eu conseguisse. Eu não estava em um estado tão diferente quando eu passei, cinco anos antes, e saí da prova achando que tinha sido ok. Provavelmente foi ok, mas eu nunca nem abri os resultados.
Quando eles vieram, eu já tinha decidido que não ia mais me mudar. Não consigo justificar completamente essa escolha até hoje, mais ou menos um ano depois. Foi depois de decidir isso que eu passei a prestar mais atenção no curso universitário em que eu já estava e a firmar raízes mais firmes de trabalho na minha cidade. Tem dado certo, eu acho. As coisas teriam sido diferentes se eu tivesse ido, de jeitos impossíveis de rastrear.
O ano está acabando, e com ele o semestre na faculdade e o período ativo do meu trabalho. Tenho mais um ou dois trabalhos para entregar e nenhuma prova. Me sinto ansiosa pelo tempo livre que eu vou voltar a ter, pelo menos por algumas semanas. Não sei exatamente o que eu vou fazer com ele, mas vai ser legal poder descansar, de qualquer forma. Até lá, eu já vou ter recebido as minhas notas de todas as cadeiras do semestre, e a coisa toda vai estar justificada.
A seguir, você encontrará perguntas ou problemas baseados no texto que acabou de ler. Cada exercício possui cinco alternativas. Assinale a alternativa correta.
De acordo com o texto, como o(a) autor(a) se sente em relação ao curso universitário em que está atualmente matriculado(a)?
a) Satisfeito(a).
b) Insatisfeito(a).
c) Iludido(a).
d) Desiludido(a).
e) O(a) autor(a) não sente nada, pois se tivesse tempo de sentir, o(a) autor(a) não teria tempo para o curso universitário em questão.
A frase que melhor sintetiza o conteúdo do texto é:
a) “Universidade pública se paga com a alma”
b) “A educação é o maior bem de uma nação.”
c) “Professores correm o risco de transmitir seus problemas psicológicos aos alunos junto com a matéria.”
d) “É aceitável não prestar atenção em uma aula, desde que o aluno não apresente um trabalho final feito com IA.”
e) “Sempre dá para encontrar tempo para ler, você que é preguiçoso e não larga esse maldito celular.”
Assinale a alternativa correta sobre o conceito de forma, conforme apresentado pelo texto:
a) A forma é anterior ao mundo real, moldando-o mesmo em meio às imperfeições da matéria. Cabe ao investigador formalista encontrar as chaves para desvendar a forma verdadeira das coisas.
b) A forma é uma convenção humana projetada sobre o mundo considerado real por meio de problemas criados pela percepção. Cabe ao investigador formalista encontrar as chaves para fugir da forma rumo à verdade, intraduzível em forma e experienciável apenas a nível individual.
c) A forma é uma invenção da CIA para controlar o mercado cultural internacional e a esquerda acadêmica, e o investigador formalista é o verme muito bem pago para produzir imagens e textos repletos de nada.
d) A forma é a forma, o formalismo é o formalismo e eu gostaria que todo mundo calasse a boca.
e) A forma é uma deusa sem forma.
Sobre a decisão de não trocar de curso e não se mudar, tomada pelo(a) autor(a), considere as seguintes afirmações:
I. O(a) autor(a) não quis se mudar por medo de perder o conforto do lugar onde mora e da vida que tem, mesmo que isso signifique não fazer o que se quer.
II. O(a) autor(a) percebeu que queria se mudar pelos motivos errados, e que, no fim das contas, em qualquer lugar que estivesse acabaria se encontrando, e essa é origem de todo o problema.
III. O(a) autor(a) disse com todas as letras que não sabe justificar essa decisão, e quem sou eu para achar que sei mais da vida das pessoas do que elas mesmas?
IV. O(a) autor(a) conseguiu mudar os rumos que sua vida vinha tomando na cidade e curso originais, e acabou encontrando motivos anteriormente desconhecidos para seguir acreditando naquilo que decidiu ser e fazer.
V. O(a) autor(a) descobriu algo no fundo de si que ainda não consegue verbalizar, mas que, quando conseguir, não vai ter para ninguém nessa ou em qualquer outra cidade, pode acreditar.
São verdadeiras:
a) I e II.
b) I e IV.
c) III.
d) I, II e IV.
e) II e IV.
Assinale o título mais adequado para o texto:
a) “O peso da rotina acadêmica”
b) “Uma análise de Múltipla Escolha, de Alejandro Zambra”
c) ”Sem tempo para nada, ao nada voltei”
d) “Decifra-me ou te reprovo”
e) “Professor Suicídio ou Como Eu Parei de Me Preocupar e Passei a Amar a Prova”

